Gaucho and the Grassland – Mais Aventura que Fazenda nos Pampas Digitais
Tchê, que Brasilidade! O Charme Gaucho dos Pampas Digitais
Criado pela desenvolvedora brasileira Epopeia Games, Gaucho and the Grassland é um charmoso jogo ambientado em um cenário inspirado na região Sul do Brasil. As raízes da empresa localizada em Porto Alegre marcam o design, tanto visual quanto sonoro, e são muito bem representadas.
Um estilo musical composto por instrumentos com clara inspiração na região Sul brasileira acompanha toda a aventura, e os personagens falam com um forte sotaque e expressões únicas da região. Itens característicos dos pecuários gaúchos encontraram oportunidades para serem usados durante o gameplay.
Todas essas características compõem o maior diferencial de Gaucho and the Grassland, e nessa parte nota-se um carinho especial dos desenvolvedores. Personagens do folclore gaúcho também marcam presença, demonstrando quão rica é a nossa cultura, e que mais produtoras brasileiras poderiam aproveitar essa vasta fonte de inspiração para fazer ainda mais jogos com um gosto brasileiro.

Simulador de Fazenda? Não Exatamente, Piazada!
Explicar o gênero do jogo não é uma tarefa tão simples. A descrição oficial diz que se trata de um simulador de fazendas. Sob esta perspectiva, é inevitável o ímpeto de comparar o título com outros do mesmo gênero como Story of Seasons e Stardew Valley. A desenvolvedora enfatiza que Gaucho and the Grassland foca na pecuária ao invés da agricultura, assim tendo um foco diferente de outros jogos que seriam considerados concorrentes.
Entretanto, eu diria que mesmo esta descrição está incorreta. Tecnicamente, sim, há animais como vacas, galinhas e ovelhas que produzem leite, ovos e lã. Uma vez ou outra guiamos rebanhos, laçamos touros e também construímos celeiros para os animais.
Porém, apenas a existência desses aspectos não configura um simulador de fazenda. Criação de animais não é necessária para o avanço no jogo, sendo que todos os produtos necessários podem ser obtidos de animais selvagens que andam pelo mapa. E mesmo que o jogador decida focar na criação de animais, não há necessidade de alimentá-los, fazê-los reproduzir, ou maneira de fazê-los criar itens de melhor qualidade. Não há como interagir com eles de outra forma a não ser coletar os itens que eles produzem, e não há penalidades em deixá-los à própria sorte.

Assim, eu classificaria o jogo como uma aventura com coleta de recursos. Para avançar, é necessário cortar troncos para conseguir madeira, acertar rochas com picareta para coletar pedras, obter peixes por pescaria, usar seu cachorro para cavar buracos e encontrar certos itens, e sim, obter produtos de animais, como leite e ovos. Como os animais vagam pelo cenário independente da existência de estábulos, é difícil considerar o gameplay uma simulação de fazenda.
A Jornada Pelos Pampas Gaucho
A história envolve o protagonista (ou a protagonista, já que o jogo permite jogar com ambos os gêneros) se mudando para o interior do Rio Grande do Sul, onde é recebido pelo espírito de seu falecido pai e acaba recebendo a missão de recuperar as 3 áreas principais da região. Cada uma é inspirada em um bioma diferente, que sofreram mudanças causadas pelo Boitatá e o sumiço de outros espíritos guardiões.

Para isso o protagonista precisa passar por cada região ajudando pessoas, recebendo gratidão suficiente para poder enfrentar o Boitatá e libertar os espíritos guardiões. A ajuda geralmente envolve entregar itens (que podem ser coletados pelo mapa, ou trocados por outros através de alguns NPCs, ou fabricados por um sistema simples de craft no inventário), construir objetos como casas e móveis, mas também podem envolver opções únicas como apagar incêndios. Há também atividades extras como corridas contra o tempo, a cavalo, que recompensam o jogador com mais opções de cavalos para servir de montaria.

Derrotar o Boitatá ou salvar os espíritos guardiões consiste em labirintos onde o jogador precisa não somente achar a saída, mas também desviar dos inimigos. Não há batalhas no jogo, mas esbarrar em um inimigo significa reiniciar o desafio. Felizmente há checkpoints durante esses desafios e uma falha não significa recomeçá-los do zero.
Construindo o Próprio Rincão
A construção de novas edificações como casas e estábulos é uma parte em que jogadores criativos podem gastar boas horas. Há áreas vastas para construções, e realizar missões dadas por outros personagens é recompensado com ainda mais opções de construções. Esta função é completamente opcional, entretanto. Tirando algumas poucas vezes em que construir é necessário para completar missões, ela pode ser ignorada por quem não tiver interesse nessa atividade.

O tempo total de jogo dependerá do foco do jogador. Um jogador que gosta de completar todos os objetivos ou que gosta de planejar e criar sua própria vila terá motivos para jogar por muito tempo. Porém, alguém mais focado em terminar o jogo poderá fazê-lo em menos de 5 horas.
Ajudar 7 pessoas em cada uma das 3 áreas é o mínimo suficiente, mas o número total de pessoas a serem ajudadas é muito maior, e mesmo depois de terminar o jogo há conteúdo suficiente para prender o jogador por diversas horas adicionais. Alguns podem reclamar da falta de dificuldade, entretanto. Apesar dos labirintos proverem algum desafio para quem não prestar certa atenção, dificuldade alta claramente não era o foco dos desenvolvedores.
Alguns Problemas Precisam de Laço
Um problema que se destaca em Gaucho and the Grasslands é a falta de refinamento do jogo. Não somente bugs, como o cachorro aleatoriamente correndo interminavelmente em círculos e nos impedindo de usá-lo para cavar buracos, ou algumas opções como travar o minimapa não serem salvas e precisar serem alteradas toda vez que carregar o jogo. Há também aspectos que não posso ter certeza se são problemas não intencionais, ou se fazem parte do game design.
Por exemplo, no modo de construção não é possível girar a câmera, sendo que para acessar essa opção temos que sair do modo de construção, girar a câmera até a posição desejada, e voltar ao modo de construção. Ou não haver um meio de rapidamente verificar qual NPC troca quais itens, nos fazendo andar até cada um, com alta chance de nos fazer decidir que é mais fácil coletar os itens desejados pelo cenário, do que encontrar o NPC que possui aquele item para troca.
Um problema que assola Gaucho and the Grasslands de forma constante é o surgimento de popups com tutoriais básicos, como apertar F para chamar o cachorro, ou pressionar B para iniciar o modo de construção. Eles aparecem aleatoriamente a qualquer momento, incluindo em situações que o botão não pode nem ser usado, e até mesmo depois de zerar o jogo durante o post-game.

Não só um incômodo, mas os tutoriais aparecendo aleatoriamente também podem confundir o jogador. Logo no começo do jogo, quando estava aprendendo as mecânicas, durante o tutorial de como consertar a cerca, apareceu a mensagem de abrir o modo de construção. Acessei o modo certo de que seria através dele que eu poderia realizar a tarefa, já que o popup de tutorial foi mostrado neste momento, e procurei em vão a maneira de consertar a cerca. Depois de momentos de frustração, decidi fechar o modo de construção para ver se tinha como continuar o jogo mesmo assim, e descobri que o conserto da cerca nada tinha a ver com o modo de construção: era só equipar o martelo e clicar na cerca quebrada. O popup simplesmente apareceu aleatoriamente na hora errada.
Outro problema que se destacou negativamente para mim foram os erros ortográficos, e frases que não pareceram muito bem construídas. Por se tratar de um jogo feito por brasileiros, palavras escritas erradas e frases com erros de concordância me surpreenderam negativamente.

Há suporte para joysticks, mas mesmo este sendo meu método de controle favorito na maioria dos jogos, em Gaucho and the Grassland este suporte não foi muito bem implementado. Alguns dos comandos não são intuitivos, e nos menus, o direcional controla o ponteiro do mouse ao invés de alternar rapidamente entre cada opção.
Entretanto, o problema que mais me surpreendeu foi a forte exigência da minha GPU, uma RTX 3090, fazendo a ventoinha girar a 100% de velocidade e ainda assim o jogo tendo alguns problemas de framerate. Mesmo com o charme da direção artística, os gráficos em si não são complexos, podendo até ser chamados de simples. Nada que justifique forçar tanto o hardware. Claramente o título necessita de melhor otimização.
Nenhum desses problemas impedem o progresso no jogo, mas demonstram que o título ainda precisava de mais um tempo no forno para o ajuste de certos aspectos. A esperança é que a Epopeia Games continue trabalhando no jogo e lance atualizações no futuro.
Buenas! Vale a Pena Conhecer Gaucho and the Grassland?
Gaucho and the Grassland pode decepcionar aqueles que esperavam por um simulador de fazendas nos moldes de tantos outros jogos do gênero, passando a sensação de que as partes relacionadas à fazenda foram decididas tarde durante o desenvolvimento.
Para aqueles que começarem a aventura sabendo do que o jogo realmente se trata, há conteúdo para várias horas de distração e o design baseado nos pampas gaúchos é um sopro de ar fresco.
PROS:
- Uso de temas e sons característicos do Rio Grande do Sul conferem um charme único;
- Enredo que envolve personagens do folclore gaúcho;
- Jogabilidade relaxante, sem pressão de tempo;
- Extensas áreas para customizar com construções;
- Quantidade grande de missões para serem completadas mesmo depois do fim da história principal.
CONTRAS:
- Mal otimizado e possui alguns bugs;
- Popups de tutoriais que aparecem aleatoriamente com intervalo de minutos, até mesmo depois de ter finalizado a história;
- Erros ortográficos e frases mal construídas no texto em português;
- Suporte não muito bem implementado para joysticks;
- Listado como um simulador de fazenda, mas sem possuir características que justifiquem este gênero;
- Possível terminar a história em poucas horas.
PLATAFORMAS:
- PC – Steam (Plataforma analisada, chave gentilmente cedida por Epopeia Games)
NOTAS:
| Jogabilidade: | Qualidade dos controles | 6 |
| Design (Dificuldade, Level, Criatividade) | 5 | |
| História: | Enredo | 6 |
| Narrativa | 6 | |
| Arte: | Gráficos | 6 |
| Direção artística | 8 | |
| Audio: | Efeitos Sonoros | 8 |
| Trilha Sonora | 8 | |
| Port | Estabilidade | 5 |
| Otimização | 3 | |
| NOTA FINAL: | 6.1 |

